Oriundi, tutti buona gente!

O Brasil possui a maior população italiana fora da Itália. Não se sabe o número exato, visto que os censos nacionais não questionam a ancestralidade do povo brasileiro. Todavia, as estimativas oscilam entre 23 a 25 milhões de pessoas com algum grau de ascendência italiana. O Paraná é o estado do Sul com o maior número de descendentes, que representam aproximadamente 40% dos paranaenses.
Entre os descendentes de italianos está a família do prefeito de Curitiba, Luciano Ducci.  No início dos anos 50, fugindo das dificuldades do pós-guerra e procurando oportunidade de uma vida melhor, Virgílio e Yolanda Ducci vieram da Toscana trazendo os quatro filhos, entre eles Giancarlo, pai de Luciano. Eles desembarcaram no porto de Santos (São Paulo) e seguiram para o Paraná. Primeiramente, se instalaram em Cornélio Procópio, Norte do estado, e trabalharam nas fazendas de café. 
Tudo era diferente. A língua, os costumes, os hábitos e comportamentos. Apesar da determinação, garra e força de vontade, comuns aos imigrantes, o trabalho era árduo, e os Ducci enfrentaram todas as dificuldades pelas quais também passaram milhões de pessoas que decidiram deixar a terra natal e procurar outros lugares para reconstruir a vida. A família, então, decidiu voltar para a Itália. 
Antes passaram por Curitiba. De malas prontas para retornar à Europa, algo aconteceu e mudou o destino e a história dos Ducci. Alojados na Pensão dos Imigrantes, localizada na Rua Itupava, no Alto da XV, Giancarlo conheceu Splendora, que veio com família da região italiana de Abruzzo e se tratava de uma enfermidade na capital. Apaixonaram-se. E Giancarlo convenceu os pais a ficarem no Brasil. E tudo deu certo!
Os Ducci mudaram de ramo e começaram a trabalhar com a comercialização de frutas. Giancarlo foi pioneiro no Mercado Municipal de Curitiba, um centro de compras da hortifruticultura. Com um caminhão também vendia laranja e uva na beira das estradas. Foi neste cenário que nasceu Luciano, e onde passou a infância e a adolescência. “Recordo-me com saudades daquele tempo. Eu gostava daquele lugar. Ainda gosto. O Mercado Municipal me traz boas lembranças. Não poderia nem imaginar que hoje se transformaria num espaço de convivência tão importante e muito frequentado pelos curitibanos”, destaca o prefeito.
A família cresceu. Os irmãos de Giancarlo e as irmãs de Splendora também acabaram se casando. E todos foram morar numa casa, localizada no bairro Uberaba. Eram 28 pessoas sob o mesmo teto e todas submetidas às ordens da matriarca, Nona Yolanda. Ela administrava o dinheiro, fazia as compras, conta Luciano, lembrando que “a cozinha tinha cinco mesas para a alimentação (uma de cada família), cinco fogões”. 
Luciano é o primeiro brasileiro dos Ducci. Nasceu em 1955. Ao completar os estudos secundários, decidiu fazer medicina. Também é o primeiro da família com um diploma de curso superior. Entre o Mercado Municipal e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Luciano passou a se dedicar mais à medicina. Formado em medicina pediátrica e casado com Marry, também descendente de italianos, foi para a Europa, onde se especializou em pneumologia infantil, em Roma. Depois de um ano, volta a Curitiba. 
A medicina passou a ser praticada no posto de saúde da prefeitura, instalado no bairro Cajuru. De médico envolvido com a comunidade e com seus problemas, Luciano passou a exercer o cargo de diretor da Vigilância Sanitária. Foi diretor geral da Secretaria Estadual de Saúde e secretário municipal de Saúde. Também exerceu as atividades no Legislativo do Paraná, como deputado. Mas sua fascinação é mesmo pelo Executivo. Hoje prefeito de Curitiba, Luciano comanda um sistema de saúde que é o melhor do país e se tornou referência para outros estados. A capital possui programas que são exemplo para várias cidades, como o Mãe Curitibana. 
A história da família de Luciano pode ser comparada a de muitos imigrantes tanto italianos como de outras ascendências. Muito trabalho, muita disposição e muito amor. “Pois se não fosse o amor entre meus pais, esta trajetória seria bem diferente”, coloca o prefeito. “Os imigrantes italianos tiveram vidas parecidas. Saíram da Itália depois de enfrentarem uma guerra. Chegaram a um país com uma língua estranha, sem dinheiro, com filhos pequenos. Trabalharam pesado. Ajudaram a construir um estado, contribuíram para o desenvolvimento de um país. Criaram comunidades que hoje são municípios, como Colombo, na região metropolitana de Curitiba, que conta com um grande número de descendentes. Organizaram Santa Felicidade, hoje um bairro italiano na capital. A luta e a força de vontade superaram os obstáculos. São guerreiros”.
A Itália sempre está presente na vida dos curitibanos. Neste ano, por exemplo,  Luciano destaca que foi realizado o Mia Cara Curitiba, uma manifestação pública criada em comemoração ao aniversário de 150 anos da Unificação da Itália. O evento contou com atividades culturais, esportivas, sociais, religiosas e gastronômicas, organizadas pelo Consulado Geral da Itália, em parceria com a Prefeitura Municipal de Curitiba e Instituto Municipal de Turismo. Esses acontecimentos simbolizaram o encontro entre as comunidades brasileira e italiana.
No ano que vem, será comemorado o ano Brasil-Itália. Serão programas, ações e projetos organizados pela Prefeitura de Curitiba que transformará a capital em um pedacinho do chão italiano. Luciano garante que, como descendente de italiano, aquele que participar destas atividades terá a certeza de que estará num pedacinho da Itália.
Da Redação NCA Comunicação
Por Ana Maria Ferrarini e Bebel Ritzmann
Fotos: Bebel Ritzmann